sábado, 27 de outubro de 2007

Passeios gastronómicos

Passeios gastronómicos

Passeio completo
Este Alentejo de que tanto gostamos vai ganhando uma paisagem substancialmente diferente conforme nos vamos aproximando do litoral. Os pinheiros vão ganhando importância e as dunas de areia fina vão aparecendo aqui e ali, para estarem por todo o lado já bem perto da orla marítima. As praias desta costa alentejana são do melhor que conhecemos, extensas a perder de vista, com falésias altas e enormes areais, batidas por mar bem forte, por vezes mesmo violento, ainda assim de águas bastante temperadas e limpas.

E por isso mesmo ricas em mariscos e peixe. São famosas as percebas da região, que aqui são cozidas só na ocasião de serem servidas, vindo para a mesa mornas, a saber a mar, uma delícia. Os mexilhões, os búzios e as amêijoas também abundam, a par das gambas, das santolas e dos lavagantes saborosos. No peixe abunda a garoupa, o cherne, o robalo, o goraz, o sargo e a dourada, e o polvo e os chocos são obrigatórios à mesa. Também muito vulgares são o peixe espada, o atum e o espadarte; estes últimos podem ser secos ao sol, salgados e depois fumados, à maneira tradicional, constituindo petisco bem mais interessante do que esses fumados industrialões de salmão e afins que para aí andam.

Dê uma saltada a Sines, com as suas calçadas antigas de terra pobre, e magníficas vistas sobre a baía, com o porto de pesca de um lado e a marina do outro, numa paisagem muito bonita, apesar da vizinhança dos cais para a descarga de petróleo e carvão, que alimentam uma refinaria e uma central eléctrica. São necessárias à evolução do país e ao bem estar de todos, mas os custos paisagísticos da sua implantação no terreno são muito grandes, demasiado grandes, talvez.

Ali em Sines há três ou quatro locais onde pode e deve provar o que o mar dá, trazido para a nossa mesa com sabedoria, com o mar por companhia. Mas como nem só de peixe se alimentam estas gentes, propomos um passeio mais para cima, com visita à Lagoa de Melides, uma beleza, e, já bem perto da povoação de Melides, vamos visitar o restautrante Tia Rosa.

Pois este “Tia Rosa”, para além dos pratos comuns a tantas outras casas da zona, ganhou fama na confecção de um prato que é pouco vulgar na região: pato assado no forno. Mas já lá iremos! É uma casa simples, com amplas salas, pois no Verão o movimento é muito intenso. Amesendação razoável e serviço atencioso. Bom pão e azeitonas, sopa de legumes ou sopa de peixe, ambas muito apaladadas e quentes como deve ser. O peixe fresco é normalmente grelhado e servem alguns pratos de carne tipicamente alentejanos, sendo o pato assado a grande curiosidade, podendo ser servido meio pato ou um pato inteiro.

É um marreco muito bem temperado e que vem para a mesa em assadeira de barro, já trinchado, com batata assada e grande quantidade de cebola muito saborosa e que acompanha com outra curiosidade: noutra terrina de barro apresenta-se um óptimo arroz de cabidela com os miúdos do pato, mas sem ser malandro e com a particularidade de ser coberto com ovo batido e que vai ao forno uns minutos antes de vir para a mesa, num preparado bem conseguido. Um conjunto de sobremesas variado com alguns doces alentejanos. Uma garrafeira bastante completa com forte presença dos vinhos da região.

Esta costa de praias apetecíveis vai continuar por aí acima até à península de Troia. Mas já lá vamos. Seguindo por aí acima para o interior vamos encontrar o rio Sado quando este atravessa Alcácer do Sal, uma cidade que nunca nos cansamos de visitar e apreciar. Com a vantagem adicional de ter sido inaugurada há pouco mais de um ano uma nova pousada, resultante da recuperação do castelo, rigorosa como já nos habituaram, e com uma situação priveligiada, donde se desfruta uma belíssima paisagem. E com a curiosidade engraçada de podermos apreciar o vôo de algumas largas dezenas de cegonhas brancas que aqui vivem todo o ano.

Seguindo a estrada que liga Alcácer à praia da Comporta, vamos contornar o enorme estuário do Sado, que aqui se espraia languidamente até encontrar o Oceano mais lá à frente. E que forma uma das mais belas paisagens ribeirinhas que conhecemos. Com a particularidade de ainda se encontrarem algumas aldeias de pescadores, que se dedicam não só à pesca no estuário, como também à pesca ao longo de toda a costa alentejana. No estuário a pesca já não tem a fartura e a variedade de outros tempos, pois o enorme foco poluidor do conjunto industrial que se vê ao fundo, na zona da Mitrena, tem vindo a destruir grande parte dessa fauna. Eram famosas as ostras desta região.

Não perca a aldeia da Carrasqueira, com a curiosidade do cais de acostagem dos barcos de pesca ainda ser totalmente de madeira, num autêntico labirinto de caminhos que levam os pescadores até às suas embarcações, tudo suportado por estacas de madeira, à boa maneira das construções lacustres de outras regiões. E dali desfruta um panorama lindíssimo do estuário. Se tiver sorte ainda pode ver ao longe um ou outro roaz, um tipo de golfinhos que tem resistido à poluição e por aqui vai vivendo e procriando.

E vamos logo à frente encontrar novamente a costa e o Oceano ali na aldeia da Comporta. Se seguirmos para norte encontramos Tróia, mas hoje vamos ficar por aqui mesmo, na Comporta, que a fome já aperta. Vamos visitar um local de culto, que tem já clientela dedicada e que é um exemplo de como se pode criar uma casa de bem comer no sítio mais recôndito e ter a casa cheia, se o bom senso e o bom gosto andarem de mãos dadas: falamos do Museu do Arroz.

Uma mulher do Porto, por estranho que pareça (mas os portugueses têm destas coisas), resolveu por aqui assentar praça e dedicar-se à restauração, sem qualquer antecedente que para tal apontasse. E logo se apaixonou por um bonito edifício de uma antiga fábrica de descasque de arroz, entretanto desactivada. Com a ajuda de quem sabe, foi esta construção transformada em restaurante e bar, mantendo inteligentemente toda a engrenagem que outrora servia para descasque da conhecida gramínea, mais um grande conjunto de ferramentas e fotografias antigas, que nos explicam um pouco da história da produção e consumo do arrozinho de que tanto gostamos. Daí o nome de “Museu do Arroz” dado a esta casa de bem comer.

O espaço está decorado de uma forma exótica, uma beleza, no seu imponente pé direito de mais de cinco metros, com um bar enorme e algumas mesinhas para quem queira só beber um copo e ouvir um pouco de música de fundo muito suave. Ao fundo um balcão corrido que separa a sala da cozinha, resplandecente. Muito boa amesendação e um serviço impecável, eficaz e simpático, muito profissional.

Pão muito bom e azeitonas muito bem temperadas. Bolinhos de bacalhau, batata na casca, deliciosa, uns curiosos bolinhos de arroz de boa fritura, camarões fritos com um toque de picante como deve ser e uns óptimos cogumelos mágicos, a não perder. Sopa de peixe muito bem confecionada e uma excelente sopa de cação, com fartura de peixe e que vem a ferver para a mesa. Uma grande variedade de peixe fresco para grelhar, cataplana de peixe e camarão e uma feijoada de chocos muito boa. Depois vem a enorme panóplia de pratos de peixe confeccionados com arroz, onde o mais difícil é escolher: arroz de bacalhau; bolinhos de bacalhau com arroz de tomate; arroz de tamboril; arroz de peixe, com tamboril, corvina e pargo, malandrinho e muito saboroso, em terrina de barro que vai abrindo o arroz e o mantém bem quente, um espectáculo; e não podia faltar o arroz de polvo, também malandrinho, muito bom; ainda os jaquinzinhos, os linguadinhos ou as enguias fritos com arroz de grelos, pois claro.

Na carne um belíssimo naco do lombo ou do vazio trabalhado na pedra, a carne de porco à alentejana, um excelente ensopado de borrego, e para terminar com o arroz como deve ser, um excelente arroz de pato, bem temperado e tostadinho por cima mas soltinho por dentro que é uma delícia, e o obrigatório arroz de lebre, bem temperado, com nacos fartos da orelhuda e aquele paladar que nos faz levitar. Tudo isto bem regado por um dos muitos vinhos de grande qualidade duma lista muito completa, ou então um tinto da Cartuxa simpaticamente servido em jarro. Para terminar uma variedade de sobremesas muito bem confeccionadas, de que destacamos a laranja marinada e o arroz doce. Que grande casa de comida! Lá fora de um lado o mar do outro o rio, já dormem profundamente. Até para a semana.

Sugestão apresentada em Outubro 2006

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